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Laudos

Perícia em falhas de redutores e motores: como a causa é determinada

A causa de uma falha mecânica está escrita nas superfícies do componente — e existe classificação normalizada para ler essas marcas. O problema é que a evidência se destrói fácil. Atendimento técnico em todo o estado do Rio de Janeiro.

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Diego Erse

Engenheiro Mecânico · CREA-RJ 2021351181

Publicado em 5 min de leitura
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Em resumo

A determinação da causa de uma falha em rolamento ou engrenagem não é opinião: existe classificação normalizada dos modos de falha, na ISO 15243 para rolamentos e na ISO 10825 para dentes de engrenagem. O que decide o resultado da análise é a preservação da evidência — desmontar, lavar ou jatear o componente antes do exame apaga a informação que determinaria a causa.

01A peça é o documento

Numa falha mecânica, a informação sobre a causa não está no relato do operador nem no histórico de manutenção — está nas superfícies do componente. Trilha de rolamento, flanco de dente, superfície de fratura: cada mecanismo de dano deixa uma marca com aparência própria, e é a leitura dessas marcas que separa sobrecarga de fadiga, falta de lubrificação de contaminação, erro de montagem de defeito de fabricação.

A evidência é consumível

Desmontar sem registro, lavar com solvente, jatear, usinar para recuperar ou simplesmente descartar o componente elimina a informação que determinaria a causa — de forma irreversível. Se houve parada por falha e existe qualquer chance de discussão com fornecedor, mantenedora ou seguradora, a primeira providência não é orçar o reparo: é isolar e identificar as peças, com etiqueta e registro de onde cada uma saiu.

02A sequência da análise

  1. 01Preservar e identificar os componentes, registrando a posição de origem de cada peça no conjunto.
  2. 02Levantar o histórico: horas de operação, carga, temperatura, vibração, análises de lubrificante, intervenções anteriores e o que mudou antes da falha.
  3. 03Registrar o estado como recebido, com fotografia, antes de qualquer limpeza ou desmontagem.
  4. 04Localizar o componente iniciador, distinguindo-o dos danos secundários — em conjunto que travou, quase tudo apresenta dano.
  5. 05Caracterizar o mecanismo pela aparência da marca, com a terminologia normalizada.
  6. 06Ensaios complementares quando o caso exigir: dureza, metalografia, composição, análise de lubrificante.
  7. 07Correlacionar o mecanismo identificado com as condições de operação levantadas.
  8. 08Concluir — e dizer explicitamente o que a evidência disponível não permite concluir.

O quarto passo é onde a maioria das análises apressadas erra. Um redutor que travou apresenta engrenagem quebrada, rolamento destruído e eixo marcado. Tratar o dano mais espetacular como a causa é o equívoco mais comum — e o mais caro, porque manda corrigir o efeito e deixa a causa em operação.

03Os mecanismos que se reconhecem

Essa leitura não é subjetiva. Existe classificação normalizada, e usá-la é o que permite que outro profissional confira a conclusão.

Em rolamentos, a ISO 15243:2017 classifica os modos de falha que ocorrem em serviço e descreve, para cada um, as características, a aparência e as causas-raiz possíveis: fadiga iniciada sub-superficialmente ou na superfície, desgaste abrasivo e adesivo, corrosão por umidade e corrosão por fricção, erosão por passagem de corrente elétrica, deformação plástica e trincas ou fraturas.

Em rolamento, dois grupos respondem pela maioria

Lubrificação — falta, lubrificante inadequado, água ou outro fluido no lubrificante, degradação — e contaminação por partículas — introduzida na montagem ou manutenção, vinda do desgaste de outros componentes como engrenagens, vedação ineficaz, filtragem insuficiente. E, na prática, é comum mais de um mecanismo atuar ao mesmo tempo: a falha pode resultar de transporte, manuseio, montagem ou manutenção inadequados, além de defeito de fabricação do rolamento ou das peças adjacentes.

Em engrenagens, a ISO 10825 normaliza a terminologia de desgaste e danos nos dentes, tratando separadamente fenômenos que costumam ser confundidos entre si — em especial pitting, micropitting e scuffing —, além de desgaste e quebra de dente.

A distinção importa porque aponta para causas diferentes, com responsáveis diferentes: micropitting e scuffing dirigem a investigação ao filme lubrificante e à condição de contato; pitting progressivo, à tensão de contato e ao número de ciclos; quebra de dente, a sobrecarga ou a trinca por fadiga na raiz. Chamar tudo de "desgaste" no laudo é desperdiçar a informação que a peça ofereceu.

04Quando o caso está em processo

Aí o laudo tem forma definida em lei. O art. 473 do Código de Processo Civil determina que o laudo pericial contenha:

  • a exposição do objeto da perícia;
  • a análise técnica ou científica realizada pelo perito;
  • a indicação do método utilizado, "esclarecendo-o e demonstrando ser predominantemente aceito pelos especialistas da área do conhecimento da qual se originou";
  • resposta conclusiva a todos os quesitos apresentados pelo juiz, pelas partes e pelo órgão do Ministério Público.

O § 1º exige fundamentação "em linguagem simples e com coerência lógica, indicando como alcançou suas conclusões". O § 2º veda ao perito ultrapassar os limites de sua designação e emitir opiniões pessoais que excedam o exame técnico do objeto.

É aqui que as normas de classificação pesam

A exigência de método "predominantemente aceito pelos especialistas" é exatamente o lugar onde a ISO 15243 e a ISO 10825 entram. Elas dão nome normalizado e internacionalmente reconhecido ao que foi observado — o que é bem diferente de descrever a marca com palavras próprias e pedir que se acredite na interpretação.

Vale distinguir os dois papéis possíveis. O perito é nomeado pelo juízo e responde a ele. O assistente técnico é indicado pela parte, no prazo de quinze dias contados da intimação da nomeação do perito (art. 465, § 1º, II), e apresenta parecer no prazo do art. 477, § 1º. Quem contrata um engenheiro para um processo em curso normalmente está contratando assistência técnica, não perícia.

05O que a perícia não entrega

  • Não define culpa. A análise determina o mecanismo e a causa técnica; a atribuição de responsabilidade jurídica é do juízo.
  • Não reconstrói evidência destruída. Não existe técnica que recupere a informação de uma superfície que foi jateada.
  • Pode concluir por causa indeterminada. Quando a preservação falhou, essa é a resposta tecnicamente honesta — e é preferível a uma conclusão que a evidência não sustenta.
  • Não é orçamento de reparo. Determinar a causa e precificar a recuperação são serviços distintos, e manter os dois separados preserva a independência da análise.

06Fontes e base normativa

Este artigo cita o texto das normas aplicáveis. Em caso de divergência, prevalece a redação oficial publicada — consulte as fontes abaixo.

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Escrito por

Diego Erse

Especialista em climatização, laudos técnicos e adequações normativas industriais.

ATIVO · CREA-RJDIEGO ERSEENGENHEIRO MECÂNICO

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